Política antitruste do governo Trump enfrenta ceticismo

Política antitruste do governo Trump volta ao centro do debate em Washington após críticas de ex-integrantes do Departamento de Justiça (DOJ) e de autoridades estaduais, que questionam a firmeza da atual gestão contra monopólios.
Em discurso na Universidade George Washington, o chefe interino da divisão antitruste, Omeed Assefi, garantiu que a agência “funciona a todo vapor” e citou The Godfather para defender acordos “estritamente comerciais”. A fala buscou rebater denúncias de que o órgão cedeu à pressão de lobistas e aceitou acordos brandos, como o firmado com a Live Nation-Ticketmaster.
Política antitruste do governo Trump enfrenta ceticismo
O descontentamento ganhou força após a demissão de dois adjuntos da ex-chefe Gail Slater em 2025 e a própria saída abrupta dela em fevereiro último. Segundo reportagem do The Wall Street Journal, bastidores da negociação com a Live Nation envolveram interlocutores aliados ao movimento MAGA, fato negado pelo DOJ.
No encontro anual da American Bar Association, antigos aliados republicanos e democratas apontaram “retrocesso” na aplicação das leis de concorrência. Roger Alford, um dos demitidos, comparou Assefi ao capitão Renault de Casablanca, ironizando a surpresa com influências políticas no órgão federal.
Com a confiança minguando em Washington, estados assumem protagonismo. Trinta e quatro procuradores-gerais — 13 republicanos — decidiram manter a ação contra a Live Nation, rejeitando o acordo federal que limita taxas do Ticketmaster e garante transparência a artistas. Colorado, por exemplo, acusa a empresa de “abusar de poder monopolista” e considera o acerto “constrangedor”.
Alvaro Bedoya, ex-comissário da FTC demitido por Trump, aposta no avanço de processos estaduais e prevê complicações se os governos locais ficarem sobrecarregados. Ele defende que o Congresso destine recursos para que as procuradorias toquem casos como a fusão Nexstar-Tegna, ignorada por Washington.
Enquanto isso, grandes tecnologias permanecem no radar. Estão em curso recursos no caso Google Search, na derrota da FTC contra a Meta e ações contra Amazon e Apple. Alford acredita que, nessas disputas, “lobbies se anulam”, mantendo espaço para punições mais severas.
Ao lado do presidente da FTC, Andrew Ferguson, Assefi minimizou a influência de lobistas: “Eles existem há décadas; reunião não garante resultado”. Ferguson foi mais ácido: “Talvez a imprensa ache divertido porque, antes, os lobistas eram majoritariamente democratas”.
O desfecho do julgamento da Live Nation servirá como termômetro. Se os estados vencerem, o acordo do DOJ poderá parecer concessão frágil; se perderem, a limitação de taxas ficará como o maior recuo obtido até hoje da companhia. Até lá, o ceticismo sobre a capacidade federal de agir como “xerife antitruste” prossegue.
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Imagem: Cath Virginia / The Verge, Getty Images
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