The Love That Remains: o pequeno grande filme islandês que investiga família, tempo e afeto

Um lar que se reorganiza depois do divórcio, três crianças aprendendo a conviver com a distância entre os pais e um cachorro que saiu de Cannes premiado. Essa é a síntese inicial de The Love That Remains, novo longa-metragem do cineasta islandês Hlynur Pálmason. A produção, exibida em salas selecionadas após circular por festivais, recria em tela uma família comum que se vê atravessada por mudanças profundas, mas o faz com leveza rara e questionamentos que ultrapassam a rotina do enredo. Sendo ao mesmo tempo íntimo e universal, o filme aprofunda a obsessão do diretor pela passagem do tempo, tema já presente em Godland e A White, White Day, seus projetos imediatamente anteriores.
- A gênese de The Love That Remains: das primeiras imagens ao recorte familiar
- Paralelos entre The Love That Remains e Godland: dois filmes, uma mesma pergunta sobre tempo
- Família diante da câmera: as crianças de Pálmason e a atmosfera de set em The Love That Remains
- Temas centrais: divórcio, amor residual e a finitude do tempo
- Processo de produção e cronologia estendida: filmar em paralelo como estratégia de sustentabilidade artística
- Palm Dog e recepção inicial: um prêmio inusitado e as perspectivas de circulação
A gênese de The Love That Remains: das primeiras imagens ao recorte familiar
A ideia que deu origem ao projeto surgiu em 2017, quando Pálmason registrou a queda do telhado de um antigo estúdio. A potência simbólica desse quadro – algo que se desfaz para depois ser reconstruído – serviu de fio condutor para todo o roteiro. A sequência inicial do filme apresenta Anna, Magnus, os três filhos do casal e o cão Panda sentados à mesa em aparente harmonia. Em poucos minutos, porém, o espectador descobre que o retrato carrega fissuras: o casal se separou, e a nova configuração familiar ainda é frágil.
Esse ponto de partida permite que o longa investigue, ao longo de diversas estações, que “amor restante” sobrevive à ruptura formal de um casamento. O diretor quis, desde o início, criar uma história “menor” em escala de produção quando comparada ao épico histórico Godland, mas igualmente profunda em densidade temática.
Paralelos entre The Love That Remains e Godland: dois filmes, uma mesma pergunta sobre tempo
Embora um se passe no século XIX e o outro na Islândia contemporânea, ambos os títulos compartilham fascínio pelo tempo – não apenas o cronológico, mas o emocional. Em Godland, Pálmason reconstruiu detalhadamente cenários de época, exigindo uma logística complexa. Já em The Love That Remains, ele buscou espontaneidade: equipe ainda menor, cronograma flexível e filmagens realizadas em paralelo a Godland, tudo para capturar momentos quando “a energia estivesse certa”. Essa estratégia permitiu que cenas de um projeto influenciassem o outro, numa espécie de troca criativa que alimentou as duas narrativas.
O resultado é que, mesmo lidando com cenografia simplificada, o novo longa mantém a assinatura visual do diretor, caracterizada por enquadramentos meticulosos, uso calculado da luz natural e ênfase em texturas. Esse cuidado cria contraste concreto entre os cenários cotidianos de uma família moderna e a gravidade dramática de uma relação em declínio.
Família diante da câmera: as crianças de Pálmason e a atmosfera de set em The Love That Remains
Um dos elementos mais comentados do filme é o elenco infantil formado pelos próprios filhos de Pálmason. A prática não é novidade na carreira do diretor; os pequenos atuaram em projetos anteriores, transformando o ato de filmar em extensão da vida doméstica. Para garantir naturalidade, a produção aboliu hierarquias tradicionais: não há cadeiras marcadas, monitores nem cronogramas rígidos comandados por assistentes de direção apressados. As cenas são registradas até que o grupo considere ter alcançado o efeito desejado.
A liberdade proporcionada ao elenco mirim torna possível, por exemplo, a gravação de momentos imprevisíveis, como a sequência em que um dos irmãos acerta outro no peito com uma flecha de brinquedo – incidente que, dentro da narrativa, resulta apenas em um suéter perdido, mas evidencia a tensão e o afeto que convivem em lares em transformação.
Temas centrais: divórcio, amor residual e a finitude do tempo
Durante o desenvolvimento do roteiro, Pálmason refletiu sobre a relevância de cada minuto vivido e sobre a rapidez com que novos ciclos se instauram. Essa perspectiva se faz presente na trajetória de Anna e Magnus, que precisam negociar responsabilidades parentais, reavaliar sonhos e evitar que ressentimentos contaminem a infância dos filhos. Toda a encenação rejeita sentimentalismo excessivo; o humor aparece em detalhes, como a menção ao prêmio Palm Dog conquistado por Panda em Cannes, lembrando que, mesmo em meio a separações dolorosas, há espaço para leveza.
Ao longo das estações representadas no filme, crescem questionamentos sobre o que permanece depois que uma relação oficial termina. As imagens registram mudanças sutis: roupas de frio que se acumulam, brinquedos espalhados por cômodos diferentes e o olhar das crianças cada vez mais atento à dinâmica dos pais. Sem falas expositivas, o longa sugere que “o amor que resta” pode não ser romântico, mas sobrevive em gestos diários de cuidado e escuta.
Processo de produção e cronologia estendida: filmar em paralelo como estratégia de sustentabilidade artística
Manter dois projetos ativos simultaneamente foi, acima de tudo, uma solução financeira. Em vez de reunir grande orçamento para cada longa, o diretor diluiu custos, alternando períodos de gravação conforme surgiam recursos. Essa rotina, que muitos profissionais considerariam caótica, permitiu que The Love That Remains amadurecesse durante quase uma década. A primeira tomada data de 2017; a estreia comercial só ocorreu depois do reconhecimento em festivais, passo essencial para ampliar a visibilidade de uma obra de baixo custo.
A cronologia estendida também beneficia a construção de personagens. Ao registrar os atores infantis em diferentes fases de crescimento real, o filme adiciona camadas de autenticidade: o espectador observa, na prática, o tempo mudar corpos e gestos. Esse recurso ecoa o motivo central da narrativa e reforça a coerência estética da filmografia de Pálmason.
Palm Dog e recepção inicial: um prêmio inusitado e as perspectivas de circulação
Entre os reconhecimentos conquistados até o momento, o mais curioso é o Palm Dog, distinção paralela de Cannes destinada a performances caninas. Panda, o cachorro da família fictícia e real, venceu a edição deste ano, atraindo atenção midiática adicional ao filme. O troféu, ainda que informal, ilustra como produções intimistas podem ganhar projeção global por razões inesperadas.
Após a passagem pelos festivais, The Love That Remains chegou a circuitos de arte e a salas comerciais selecionadas, onde continua chamando público interessado em dramas familiares que escapem de fórmulas convencionais. A presença prévia de Godland no radar de cinéfilos internacionais ajuda a consolidar a reputação do realizador, que agora soma três longas de alcance global.
Com temporada de exibição em andamento, o longa permanece acessível em cinemas de programação especial. A continuidade dessa rota depende da recepção do público e de convites para novos festivais, etapas que definirão os próximos espaços nos quais o filme poderá ser visto.
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